Entry: ENTREVISTA - DANILO MENDES Monday, October 15, 2007



    Olá pessoal !

    Dando início à série de entrevistas com cervejeiros caseiros, publico aqui o bate-papo com Danilo Mendes, o criador da Gerais Cerveja Artesanal e vice-presidente da AcervA Minas (opa, mas essa é outra novidade que já vou contar aqui). Danilo participou das duas edições do BH Home Bier e vem fazendo bonito quando o assunto é cerveja, conquistando fãs incondicionais. Sua dubbel e sua porter com cardamomo deixaram muita gente impressionada. Suas cervejas podem ser degustadas no Frei Tuck Slow Beer, sempre que são produzidas. E o cara tá sempre arranjando uma novidade...

   
    Danilo degustando uma de suas obras



    A seguir, os melhores trechos da entrevista:
 

1-  Quando você começou a beber cerveja? Qual é o seu histórico com o precioso líquido?

    Puxa vida, meu histórico não é muito saudável... demorei a "aprender" a beber. Comecei cedo, logo aos 15, e também bebi muita porcaria que diziam ser cerveja. É fato que o paladar se apura com o tempo.

    Mas um dia aprendi a beber socialmente, e a apreciar o que bebo. Hoje aboli as bebidas destiladas e só bebo as fermentadas, principalmente cerveja. E cerveja de qualidade! É claro que bebo as "comerciais" também, mas só quando não tenho opção.

2-    E quando começou o interesse por cervejas especiais?

    Fui apresentado às cervejas especiais há uns 10 anos, quando experimentei pela primeira vez uma Baden Baden.  Ainda lembro que era uma Bock... é lógico que fiquei muito impressionado com o sabor diferenciado desta cerveja. Depois com a abertura da Krug Bier, pude experimentar outros tipos de cerveja, além do monopólio das Pilsen que existem hoje.

    Mas o interesse veio mesmo quando comecei a provar as cervejas da Eisenbahn.  Ficava muito impressionado porque cada uma era um sabor bem diferente da outra. Foi assim que fui apresentado aos diversos "Estilos". Minha curiosidade aumentou e comecei a pesquisar e estudar sobre o tema.

3-       Qual é o seu estilo (ou escola) favorito (a)?

    Minha escola favorita é a Belga, na qual se permite "quase tudo" na hora de elaborar uma receita. É a escola onde se admite os temperos, especiarias e sabores frutados / cítricos na composição da cerveja. É a verdadeira alquimia. Só lamento ainda não termos acesso no Brasil às leveduras (fermentos) próprias para fazer estas cervejas. Temos que utilizar sempre o mesmo tipo, o que dificulta a variação no sabor final da cerveja. O que na verdade nos ajuda, pois desta forma temos que nos esmerar na composição das receitas se quisermos alcançar resultados satisfatórios. Isso faz com que aprimoremos nossa arte e habilidades.

    Mas os estilos Ingleses também me atraem muito. As Porters, Brown Ales, Stouts (mais tipicamente representada pela Guinness) são cervejas muito agradáveis e de relativa facilidade em sua elaboração. São clássicos com séculos de tradição.

4-       Quando você teve a idéia de começar a fazer cerveja por conta própria? O que te influenciou a começar e com quem você aprendeu?

    Quando era garoto, por volta dos 12 anos, via o pai de um amigo meu fazendo cerveja. Achava aquilo muito legal. Mas perdi o contato e esqueci-me da coisa. Há uns anos, quando estive em Campos do Jordão e visitei a Baden Baden, vi de perto uma fábrica e fui apresentado aos processos de fabricação cervejeira. Renasceu o interesse, porém era um sonho distante ainda tendo em vista que as informações eram quase que "segredo de estado".

    Quando em 2004 eu comecei a participar do Orkut, descobri a comunidade "Cerveja Artesanal". Eram poucos na época, na maioria curiosos. Em Belo Horizonte, não tinha ninguém que fazia.

    Comecei a pesquisar pela internet e vi alguns sites que vendiam insumos. Resolvi tentar. As primeiras ficaram muito ruins... Um pouco pela inexperiência, mas também pela qualidade dos insumos que tinha acesso. Quem experimentou, já conhece o famigerado "fermento líquido" de um tal fornecedor mineiro. Era difícil sair coisa boa daquilo.

    Por coincidência, nesta época era inaugurada a Falke Bier. Conheci o Marco Falcone na Mercearia do Lili (tradicional bar de Belo Horizonte) e ele me convidou para visitar sua fábrica. Fiquei muito entusiasmado! Ele me ajudou muito. Foi o divisor de águas nas minhas experiências cervejeiras. Já havia feito 03 levas, sem muito sucesso. Ele me explicou direito os processos e me deu dicas valiosas para melhorar minhas cervejas. Lembro que disse a ele: "...o dia que minha cerveja ficar boa como a sua, vou estar realizado! " Estou quase lá... o que falta ainda não sei. Aliás, se soubesse, já tinha feito, he he.

    Depois com a popularização do Home Brewing, conheci o pessoal da Confraria da Cerveja de BH. Surgiram as trocas de experiências, o auxílio valioso do Paulo Schiaveto e os eventos do BH Home Bier. Agora, o céu é o limite!



Gerais Estrada Real: uma tripel "profissa" e poderosa...

5-       Quais foram as principais dificuldades que você enfrentou no início?

    Mais do que a falta de informação, foi a falta de ingredientes de qualidade. Hoje tenho acesso a muita coisa que não tinha há 03 anos, devido ao interesse em Home Brewing crescer a cada dia. Como sempre a demanda puxa a oferta.

    Montar o equipamento foi difícil também... tive que adaptar tudo. Coisas como Air Lock, Termômetro Digital, Sacarímetro eram bem difíceis de se achar. E bem caros também... Até a ferramenta para fechar as garrafas foi difícil encontrar. Teve uma produção em que eu utilizei garrafas PET recicladas... ainda não sabia que a cor da garrafa de cerveja (marrom escuro) era desta forma por uma boa causa, he he he. Nem preciso falar no que deu... foi minha primeira experiência com contaminação. Resultado: cerveja azeda e com cheiro de abacaxi passado.

    As limitações com espaço são até hoje um problema sério. Faço cerveja em casa, que na verdade é um apartamento pequeno, sempre limitado à quantidade de 20 litros (que é a capacidade da minha panela e do meu fermentador). Tenho a intenção de montar um equipamento em que possa produzir 100 litros por batch (que é como chamamos as produções). Mas para isso tenho que primeiramente conseguir um lugar adequado. Creio que isso será quando decidir evoluir do módulo "hobbies" para o módulo "Professionals".  

    Ainda espero que apareça um empresário de visão, e comece a produzir equipamentos próprios para a comunidade de Home Brewers. Mercado tem, é só saber explorar.

6-       Quais estilos você já produziu e quais você pretende produzir ainda?

    Eu já tentei copiar diversos estilos. IPA, Pale Ale, Stout, Porter, Brown Ale, Red Ale, Kölsch, até mesmo uma Weiss. Fiz também as belgas Wit e Triple e uma Lambic que não ficou muito boa não (afinal faltou o fermento próprio).

    Durante um bom tempo fui fazendo cerveja sem repetir uma receita anterior. Sempre experimentando novidades. Até que depois do primeiro BH Home Bier, percebi que havia um mercado para as cervejas caseiras. Decidi então aprimorar algumas receitas e repeti-las para gerar um padrão de qualidade.

    Hoje tenho em mente produzir mais ou menos 07 estilos (ou tipos) comercialmente. Triple, Smoked Brown Ale, Porter, estas 03 já tiveram uma boa aceitação, são as Estrada Real, Fogão de Lenha e Tiradentes (respectivamente). Além destas também produzirei as Pale Ale, Hefe-Weiss, Barley Wine e uma Christmas Ale. Essa última é um projeto ainda…

    Todas Ales, sempre. As Lagers eu nunca fiz e nem tenho condições para tal no momento, pois precisam de temperaturas bem controladas de fermentação e maturação.

7-       Por quê você escolheu a temática relacionada à Minas Gerais para os nomes das suas cervejas?

      Foi quase por acaso. Eu tinha em mente um nome de origem germânica, como quase todos pensam no início. Mas o nome que escolhi não caiu muito bem. O próprio Marco Falcone disse que não seria fácil e poderia gerar confusões na sua pronuncia.

   Então percorri o caminho inverso. Pensei primeiro no Marketing de divulgação e cheguei ao nome atual "Cerveja Gerais". O rótulo ajudou, pois escolhi o logo de um anjo bem no estilo do "Barroco Mineiro". Pensei em relacionar o estilo de cada cerveja que eu faço com um lugar ou um tema da cultura mineira. Todos os nomes das cervejas tem relação com os estilo (pelo menos na minha cabeça, he he). Creio que minhas aulas de Marketing na PUC valeram alguma coisa.

    E o nome caiu bem no gosto do povo. Alguns dizem logo de cara: "Já registrou esse nome? Faça logo, é muito legal." Estou providenciando isso no momento.

   A propósito, minha Christmas Ale irá se chamar "Pipiripau", em referência ao presépio mais famoso de BH. Aguarde, em breve na praça! Chegará para o Natal de 2007.



Gerais Fogão de Lenha: smoked brown ale frutada e encorpada.

8-       O que você acha do momento atual da cultura cervejeira no Brasil e como você vê o papel dos mineiros nesse movimento?

    O Brasil está saboreando hoje, o que já foi novidade na Europa e nos Estados Unidos. Até mesmo a nossa vizinha Argentina está anos em nossa frente.

  A cultura cervejeira está em grande expansão. Não só pelas micro-cervejarias que são abertas a cada ano, mas também pelo acesso às cervejas especiais importadas. Hoje o brasileiro tem opção de compra, mesmo nas gôndolas das grandes redes. Há também o crescimento de bares destinados a este público específico de apreciadores de cervejas especiais.

   Paralelamente a isto, está acontecendo o "boom" dos cervejeiros caseiros. Como disse anteriormente, há 04 anos não tinha nenhum cervejeiro caseiro em BH. Hoje, eu conheço pelo menos 15, e que estão produzindo cervejas de qualidade e que não deixam a desejar a nenhuma importada. Isto sem falar no pessoal do Vale do Aço, Juiz de Fora e Lavras.

    A turma mais organizada atualmente é a carioca, apesar de não ser a mais antiga. Graças à internet, temos feito um bom intercâmbio de informações e experiências. No último BH Home Bier, o vencedor foi um carioca, no evento do Rio, nosso amigo de BH, Rômulo Gresta, ficou em terceiro lugar num concurso que teve aproximadamente 40 cervejas analisadas.

    Creio que num futuro bem próximo teremos bares especializados em comercializar as cervejas artesanais caseiras. Pelo menos aqui em BH, a capital nacional dos bares.

    Nós mineiros temos muito a contribuir para este movimento. Como em tudo, o que fazemos, fazemos com qualidade!

9-         Por fim, mande uma mensagem para os leitores do BA!

    Aos leitores deste blog, que provavelmente tiveram sua introdução à cultura cervejeira pelo nosso amigo Rodrigo Lemos que, aliás, com certeza foi uma excelente experiência, gostaria de dizer para deixar-se apaixonar pelo mundo cervejeiro. (Sempre com moderação).

    O Universo da cerveja é tão rico quanto o do vinho, com uma deliciosa diferença: é possível fazer excelentes cervejas no Brasil, enquanto o vinho fica limitado por derivar diretamente das uvas, cujo no solo e clima do nosso país não é o mais propício.

    Somente com a difusão desta cultura é que poderemos mudar o mercado consumidor, que afinal de contas somos nós mesmos. Temos que exigir qualidade e não ficar "bebendo propaganda". Busque conhecer o que bebe, e com certeza irá apreciar melhor sua cervejinha de fim de semana.

    No mais, minha cerveja é a Gerais. Se você ainda não provou, um dia irá degustá-la com certeza. Nós da Confraria da Cerveja de BH, estamos sempre abertos a quem quiser conhecer ou se aprofundar nesta experiência. Venha que com certeza será bem recebido.


    Um abraço,

    Danilo Mendes – Cerveja Gerais

    § 11.


    Ouvindo: Led Zeppelin - Achilles Last Stand

   4 comments

Wanderlei Rei Batista
July 26, 2009   08:28 PM PDT
 
Boa noite gostaria de saber se tem algum livro que ensina passo a passo o processo de fabricação de cerveja, assim como qualidade e sanitização. Tambem gostaria de saber onde encontro em BH os engredientes da cerveja
Cristiano Tamietti
January 21, 2009   04:03 PM PST
 
Boa tarde, gostaria de receber informações sobre os cursos de processos cervejeiros a serem realizados em BH.

Obrigado desde já.

Fred
September 4, 2008   02:22 PM PDT
 
Caros amigos, Beer Architecture,

Vocês ou algum membro da Confraria da Cerveja de BH, ministram cursos para produção de cerveja artesanal em Belo Horizonte??? Caso positivo, gentileza informar, ok?!!

Grande abraço, Fred
fredioalencar@hotmail.com
Armando Fontes : : )
October 16, 2007   10:38 AM PDT
 
Danilo, deixe seu contato ai pra gente poder experimentar suas preciosidades.

Tenho muito interesse em produzir minha propria cerveja tb, mas queria antes de tudo acompanhar um processo caseiro do pessoal da confraria, pra tomar coragem e conferir detalhes de higiene e processo.
forte abraço
armandofontes arroba msn.com

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